Saltos no Canionismo

Autor:

Carlos Roberto Alcântara de Rezende

O canionismo tem suas origens no final do século dezenove com o Édouard Alfred Martel, considerado o pai da espeleologia. Nas expedições, os cânions se misturavam às cavernas, demandando técnicas diferenciadas que moldaram o canionismo, à época, chamado “espeleologia a céu aberto”. A partir de então, a espeleologia se desenvolveu com a prática continuada, e mais expressivamente com criação da Federação Francesa de Espeleologia (FFS), em 1963. Os cânions continuaram a ser desafiados pelos espeleólogos, mas foi somente na década de oitenta que o volume de descidas aumentou significativamente, inclusive com o registro das explorações, facilitando a aventura para outros, que conheceriam antecipadamente o trajeto e as condições dos cânions. Desde então, o canionismo se desenvolveu como modalidade, com eventos, normatizações, publicações e cursos, a partir de organizações próprias, dentre as quais, a Escola Francesa de Canionismo, que atualmente funciona como um Departamento na FFS (site do Grupo Brasileiro de Canionismo – GBCAN, 2020).

Dentre as técnicas desenvolvidas por esses desbravadores históricos, destaca-se o salto, como um momento fascinante para muitos canionistas. O prazer de saltar, no entanto, envolve riscos. Uma entrada em posição incorreta pode levar à compressão dos discos lombares, fraturas, sobrecarga cervical e lesão nos ombros. Portanto, além da execução correta dos gestos técnicos, a vestimenta de neoprene, botas e o capacete complementam a segurança. Além disso, há sempre a opção obrigatória de descer em cordas ou desescalando, até porque, alguém tem que verificar a área de imersão.

A aprendizagem das técnicas corretas e o treinamento podem tornar os saltos mais seguros. Porém, fica difícil quando não se tem parques próprios para a prática do canionismo no Brasil. Resta a repetição nas eventuais descidas de cânion, e somente naqueles em que essa oportunidade é viável, ou seja, a frequência de treinos é sempre insuficiente.

Quanto mais alto, mais aceleração, mais densa a superfície da água e maior a profundidade de imersão. Será mesmo? Quem salta de uma altura de três metros e toca o fundo na fase de imersão, pode saltar no mesmo local, partindo de uma altura de dez metros, ou se colocará em risco pela possibilidade de tocar o fundo com mais força?

Recorremos ao professor e físico Fernando Lang da Silveira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sabendo que ele calculou a profundidade de imersão do canionista brasileiro Laso Schaller, após saltar de uma plataforma há 58 metros de altura. Segundo cálculos estimativos, nesse salto extremo o esportista chegou à lâmina d’agua com a velocidade de 123 km/h e imergiu cerca de 4 m, a contar dos pés. (https://www.youtube.com/watch?v=JAKLBJWKmQc).

Solicitamos então ao professor que esclarecesse a relação entre a altura do voo e a profundidade de imersão após o salto. Em resposta publicada no endereço https://www.if.ufrgs.br/novocref/?contact-pergunta=frenagem-em-meio-liquido-a-imersao-do-saltador-parece-quase-nao-depender-da-altura-de-queda, o professor Fernando afirmou que “o estancamento do projétil humano é quase independente da altura do salto”. Embora isso possa ser tranquilizador em relação ao impacto no fundo após a imersão, por outro lado, “isso pode ter uma consequência terrível para saltadores de grande altura: a força de arrasto pode produzir lesões sérias no saltador”.

Na questão mencionada acima, a velocidade de entrada na água de um salto a partir de três metros é aproximadamente 27,6 km/h e a partir de dez metros, 50,4 km/h. Significa quase o dobro da velocidade de entrada em choque com uma força contrária, impedindo uma penetração mais profunda para compensar o impacto. Em outras palavras, no salto a partir de dez metros, o(a) canionista provavelmente tocará o fundo de forma pouco diferente em relação ao salto anterior (três metros), mas se colocará em maior risco pela possibilidade de um choque inadequado.

O que chama a atenção, é que a cada metro acima o risco do impacto na água cresce exponencialmente, como se o líquido ficasse gradativamente mais sólido. A partir de determinadas alturas, talvez acima de oito metros, o impacto incorreto do corpo na lâmina d’água pode provocar a flexão involuntária das pernas, ampliando a área corporal de contato e expondo a coluna vertebral ao choque (cóccix). Nessas situações, contrair os glúteos forçando a junção das pernas pode assegurar a manutenção da postura ereta, indicada para a melhor penetração na água. Manter as pernas plenamente esticadas, muito comum noutro esporte, saltos ornamentais, também não seria indicado, pois além das diferenças de técnica e treinamento, pesa o fato de que o saltador desse esporte fica menos exposto ao impacto na coluna vertebral, quando aterriza nas pontas dos pés, sem botas.

Os capacetes também ajudam nessa hora, mas é bom lembrar que o rosto fica desprotegido, especialmente os olhos, e que há risco de impactos graves nessas partes. Em alguns casos, por exemplo, o saltador abaixa a cabeça no início do voo para olhar onde vai cair, provocando o giro transversal do corpo e o choque do rosto na água. Aqui, vale ressaltar que os capacetes sem vazão de água são inadequados, porque podem pressionar gravemente a carótida e a coluna cervical do saltador.

Ainda sobre a técnica, seguem algumas dicas: a posição correta de entrada na água é exatamente na vertical, pernas juntas (glúteos contraídos), braços cruzados no tórax, Joelhos semiflexionados, tocando a água com a sola dos pés; sobre a respiração, inspirar durante o voo e expirar pouco antes de tocar a água, continuando na fase de imersão, ajuda no bloqueio da entrada de água pelo nariz; alguns saltadores fazem esse bloqueio apertando o nariz com uma das mãos, mas é preciso que o cotovelo se mantenha junto ao corpo.

A sequência de um bom salto seria então: (1) verificar o local preliminarmente (incluindo a parte submersa usando óculos próprios – ver ausência de galhos, rochas etc); (2) posicionar-se em solo firme e não escorregadio; (3) levar uma das pernas à frente e saltar com a cabeça no prolongamento do corpo (é possível olhar para baixo mantendo razoavelmente esse prolongamento, sem abaixar a cabeça); (4) voar com o corpo em posição vertical, com as pernas juntas e semiflexionadas, glúteos contraídos e braços cruzados no torax; (5) submergir, evitando a entrada de água pelo nariz; (6) voltar à tona para respirar; (7) comunicar a equipe que está bem.

É importante lembrar que voltar à tona não é necessariamente o sinal de que deu tudo certo. Nem mesmo quando o(a) canionista olha para os(as) colegas, quer dizer que está bem. Uma pequena hipoxia, provocada pela entrada de água nas vias respiratórias baixas, pode impedir momentaneamente a respiração. Nessa hora, o(a) canionista não fala e não grita. É preciso desenvolver indicadores que demonstrem que o(a) saltador(a) concluiu adequadamente o salto para que se decida em poucos segundos pelo socorro ou não. Um tipo de sinal muito comum é o toque no capacete com o punho fechado, desde que, combinado em equipe.

Finalmente, cabe afirmar que na dúvida, o melhor é descer em corda ou desescalando. Nunca é demais ser conservador nessas horas.

Cánion BS Diamond
Foto: Sanner Moraes

Apoio Técnico: Staff Monitores Auxiliates GBCan

Revisão: Luiz Lo Sardo Neto

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