Nós para Canionismo

Nós de amarra no Canionismo
Carlos Roberto Alcântara de Rezende


Os Nós de amarra possibilitam fazer alças, blocagens, ligam pontas de cordas e compõem
a montagem de diversos sistemas no canionismo. Sem eles, as cordas não teriam utilidade e não seria possível descer um cânion esportivamente.

Cada Nó tem uma forma única e um nome que lhe dá identidade. Nos estudos sobre esse tema utiliza-se a taxionomia de Ashley, com 3854 voltas e Nós, referenciados internacionalmente como Abok #nnnn.

Uma terminologia única facilitaria a comunicação, mas as denominações são muitas e até
mais de uma no mesmo País. É assim que no Brasil o Nó Dinâmico é também conhecido
como UIAA, Demi Cabestan, Meia volta do Fiel e Munter. Modificar isso não seria fácil, mas, enfim, os canionistas precisam se comunicar.

Alguns Nós são identificados pelo nome de quem foi precursor de uma determinada aplicação.

Os Nós Machard e Prusik já constavam na taxionomia de Ashley, respectivamente Abok #1662 e Abok #1663, antes de se tornarem uteis na escalada, por
iniciativa e criação do austríaco Karl Prusik e do francês Sergé Machard. Noutro exemplo, o
guia e escalador suíço Werner Munter foi homenageado na denominação do Munter Hitch
(Abok #1195). A versão “super” deste Nó, com uma volta a mais, é uma boa opção para debrear com mais atrito.

Outro critério de denominação é geográfico. O nome Valdotain, por exemplo, tem referência no dialeto Valdostano, falado em uma região ao norte da Itália, divisa com a França. O termo Valdôtain deve-se à influência francesa. Outra denominação com esse critério é a do Nó Bellunese, inspirada em uma região montanhosa na Itália.
A origem do nome Aselha tem referência na palavra asa. Escrita com “z”, significa enguiço,
desastrado, nada bom para os esportes de aventura. Já os Nós Pescador Duplo, Meio
Pescador Duplo de Longe, Pescador de Arremate, com suas variações simples e triplo,
têm uma forma peculiar de cruzamento em torno da corda, denominada internacionalmente
como “Fisherman”, possivelmente em razão das primeiras aplicações.

O canionista deve escolher criteriosamente os Nós para cada situação e é preciso
treinamento para fazer bem.

Embora a descida de cânion seja sempre um treino, não é
suficiente e nem o momento para aprender Nós – é aconselhável treinar no dia a dia. Manter um pedaço de corda à mão em casa, no carro, no trabalho, pode ser a oportunidade de
praticar e ao mesmo tempo distrair.

Para fazer o Nó corretamente, recomenda-se que não haja cruzamentos, senão os previstos
na configuração da estrutura. Durante o ajuste, cada seção saliente ou folga deve ser
removida. As sobras de ponta de corda devem ser suficientes para esse ajuste e para
compensar um eventual deslizamento, muito comum quando o Nó é fortemente
tensionado

Seguem alguns Nós selecionados no Manual Técnico de Canionismo, publicado pela
Federação Francesa de Espeleologia/Escola Francesa de Canionismo, em 2019

Observação: Na ausência de uma nomenclatura oficial, as denominações dos Nós acima representam a tentativa de utilização de termos conhecidos pelos canionistas no Brasil.

As funcionalidades e os aspectos mais precisos da execução dos Nós devem ser aprendidos em cursos técnicos, tendo em vista que a aplicação ocorre em atividade de risco. Seguem breves considerações.

O Aselha de Expansão é suficientemente estável para a junção de cordas no recolhimento e até mesmo em descensos, desde que bem ajustado em todas as direções, puxando forte cada ponta de corda e deixando a sobra maior que trinta centímetros. O Pescador Duplo não é adequado para essa função, porque pode travar nas rochas durante o recolhimento. Em alguns casos, é recomendável a execução de um Nó Aselha de arremate, especialmente no caso de cordas mais deslizantes, como as cordas novas, por exemplo. Ainda sobre o Aselha de Expansão, a utilização para entalamento não é recomendada, porque pode travar dentro do elo de ancoragem ou mesmo se desfazer. Nesse caso, a melhor opção é o Oito Duplo ou o Nove, trançados em um mosquetão, porém apenas nos sistemas em que o entalamento não se encontra em oposição à corda de descida, como por exemplo no rapel guiado (Preferred knots for use in canyons, elaborado por David Drohan, 2001).

É possível utilizar fitas unidas com Nó, mas o Nó de Fita é relativamente difícil de fazer e ajustar com efetividade. Além disso, a variedade de fitas disponíveis para uso nos esportes de aventura demanda maior cuidado na escolha. Por isso, os anéis originalmente fechados pelo fabricante são os preferidos pelos praticantes. Nesse universo, as fitas de dyneema destacam-se pela leveza e resistência, inclusive ao calor por atrito.

O Aselha Ponta de Corda (triplo) é recomendado nas situações em que o armador não visualiza o comprimento lançado. O primeiro a descer orienta a correção de eventuais excessos ou falta de corda, por meio da comunicação sonora. Após o ajuste, o Nó é desfeito para o descenso do próximo canionista. Esse Nó serve também para evitar o escape do canionista em um rapel fracionado. A vantagem é que o peso das alças, além de facilitar o lançamento, pressiona o ajuste do Nó, ainda mais quando debaixo de água corrente, diferentemente do Nove e outros que tendem a se desfazer quando pressionados pela água. O Oito Duplo, às vezes utilizado nessa função, pode ainda vazar no freio, especialmente em cordas com nove milímetros de diâmetro.

O Prussik é o Nó blocante mais antigo nos esportes de aventura e o mais efetivo para travamento. É ótimo para a fixação de protetores de corda no canionismo, porém, o Machard (com variações) e o Valdotain são mais utilizados, porque afrouxam com mais facilidade depois de forte tensão.
A parceria dos Nós com as cordas, no entanto, tem inconvenientes. A alma da corda perde qualidade quando dobrada no mesmo ponto por longos períodos, sendo aconselhável que os Nós sejam desfeitos após o uso. Há também um impacto significativo na resistência das cordas. O fato é que o rompimento por carga em uma corda íntegra ocorre na estrutura do Nó, mais exatamente na curva de entrada. Há relatos de acidentes nos esportes de aventura, dentre os quais, o ocorrido com Dan Osman, considerado um dos criadores do “Rope Jump”. Morreu em 1998, aos 35 anos de idade, após a sua corda de segurança romper na estrutura do Nó, enquanto executava o salto de uma altura superior a 300 metros.

Essa perda de resistência varia entre os Nós, sendo mais expressiva em Nós com curvas mais agudas e concentração de carga em um ponto da estrutura. Em alguns, a curva principal pressiona e se mistura com a própria alça de ancoragem, com impacto ainda maior, como acontece no Boca de Lobo e Volta do Fiel. Existem pesquisas sobre esse tema e valores de referência publicados, entretanto, com percentuais divergentes, principalmente pela variação do tipo e das condições das cordas utilizadas nos testes. Todavia, é possível considerar que os Nós mais utilizados no canionismo impactam em média 30% na resistência das cordas.
Cabe considerar também que as cordas e fitas são submetidas à deterioração mecânica e a eventuais fatores de queda, perdendo continuamente a qualidade e ampliando significativamente esses percentuais de perda de resistência. Apesar disso, são justamente as cordas antigas, as mais utilizadas nas montagens de laços de backup em chapeletas, até com pouca sobra de ponta de corda nos Nós, justamente onde podem ocorrer expressivos fatores de queda.
Na conclusão deste texto, segue uma tabela do comprimento de corda utilizado em alguns Nós.

Os canionistas mais experientes desenvolvem a percepção imediata desse comprimento, o que evita retrabalho e demora na hora de fazer o Nó. Com o tempo, pode-se aprender memorizando a imagem da corda e/ou comparando com a largura dos próprios ombros, antibraço ou palmo. Para facilitar, seguem alguns valores aproximados de referência, considerando a necessária sobra maior que 30 centímetros para os Aselhas de Expansão:

Consumo médio de corda para confecção dos nós

Apoio Técnico: Staff Monitores Auxiliates GBCan
Revisão: Luiz Lo Sardo Neto
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